Claudya Incendeia o Teatro Rival e Prova que Grandes Vozes Nunca Saem de Cena
Texto e fotos: Eduardo Moraes
O show de Claudya no Teatro Rival Petrobras, em 09 de maio, foi menos uma simples apresentação e mais uma aula de permanência artística. Em um tempo dominado pela urgência, pelos hits descartáveis e pelo espetáculo instantâneo, Claudya subiu ao palco para lembrar que carreira sólida se constrói com voz, repertório e verdade interpretativa.
Uma artísta deste naipe merecia uma casa lotada, não foi assim, não importa, pois entre amigos, antigos fãs e novos, que surpreendentemente conheciam suas músicas, provando serem admiradores da cultura e principalmente de uma grande voz, Claudya celebrou 60 anos de uma linda carreira, com louvor.
Desde os primeiros minutos, ficou evidente que não se tratava de uma artista vivendo apenas da memória. Claudya mostrou domínio absoluto de cena, segurança vocal e uma elegância rara. Sua voz, madura e cheia de textura, carrega hoje algo que a juventude não entrega: vivência. Cada frase cantada parecia atravessada por décadas de estrada, afetos e resistência.
Rodeada por uma banda e backing vocals jovens, a cantora me pareceu um pouco refém, perdida as vezes, procurando segurança em seus parceiros de cena. Ok ser uma grande banda, mas os 60 anos de bagagem deveriam ajudar a cantora dominá-los e fazê-los segui-la e não o contrário. Sua grande trajetória, sua longevidade musical, parecia estar à mercê deles, principalmente da filha, que parecia estar buscando seu momento de brilhar, com interferências, por vezes desnecessárias. Mas como boa mãe... A gente acaba entendendo sua entrega a todos, se deixando ser conduzida ao invés de conduzir.
A introdução gospel à música "Jesus Cristo" ficou bonita e foi inesperada.
O repertório funcionou como espelho de sua trajetória, revisitando clássicos sem soar nostálgico demais. O mérito do show esteve justamente nisso: celebrar o passado sem ficar aprisionado a ele. Em vez de transformar a noite em museu, Claudya tratou sua própria obra como algo vivo, pulsante, ainda capaz de emocionar e dialogar com o presente. Apenas dois momentos me deixaram com gosto de quero mais: o primeiro quando ela cantou, trocando palavras como "rapaz latino-americano" (de Belchior), por "alguém latino-americano" e "soy latino-americano e nunca me engano" (Zé Rodrix), por "soy latina-americana e nada me engana", unindo as duas músicas, mas ficou bem curta a apresentação, uma pena, poderia ter explorado mais as duas lindas canções. E claro que senti muita, muita falta de "Não Chores Por Mim Argentina". Apesar disso o repertório foi eclético, lindo e visitou bem a longa carreira da cantora.
No palco, não houve excessos cenográficos nem recursos para mascarar lacunas. A força estava concentrada no essencial: música bem executada, interpretação refinada e presença cênica. Em tempos de produções grandiosas que muitas vezes escondem fragilidade artística, essa escolha soou quase subversiva.
Artistas como Claudya ainda ocupam menos espaço do que merecem no circuito principal da mídia e do mercado. O show escancarou essa injustiça: estamos diante de uma intérprete de alto nível, dona de repertório importante e presença rara.
Ao final, ficou a sensação de que o público não assistiu somente a um show, mas a uma reafirmação de valor artístico. Claudya provou que certas vozes não envelhecem — ganham peso, densidade e importância com o tempo. O espetáculo foi sofisticado, emocionante e necessário.
Na hora do agradecimento ao público, Claudya, que faz aniversário no dia 10 de maio, ganhou um bolo de sua produção e todos cantaram parabéns para ela. Fortemente emocionada Claudya disse que nunca esquecerá este dia. Nem eu, nem nós, o público deste dia incrível.






